quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
O Deus Bailarino
Chovia sem espaço entre as gotas. O barulho d’água não permitia que ninguém conversasse: estavam todos hipnotizados, como a platéia esperando o clímax da ópera. A chuva se impunha forte e impávida dominando todas as criaturas. Não tardou, e um grande rio levantou correndo da encosta; feliz, descia rindo e agitando suas bandeiras. Ninguém conseguia amar naquela hora, eram todos o desengano: o medo de Deus, a consciência de sua miséria. Mas havia um – e apenas um – que respirava aquela tormenta: Nijinski, que dançava e dançava, celebrando a chegada dos pais.
Para a "Besta dos Pinheirais" - Lembrando de Paulo Leminski
O poeta é pássaro que por engano nasceu gente,
um riozinho que seguraram,
uma pedra articulada.
Um poeta não conhece limites,
não gosta de receitas
nem de certezas.
Um poeta é sempre torto, sempre belo;
translúcido como sonho e
inesquecível como uma saudade.
um riozinho que seguraram,
uma pedra articulada.
Um poeta não conhece limites,
não gosta de receitas
nem de certezas.
Um poeta é sempre torto, sempre belo;
translúcido como sonho e
inesquecível como uma saudade.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
O Boto
Hoje tinha um boto rosa flutuando sobre a mesa do almoço.
Ele fora adquirido no cemitério, no dia de finados, para alegrar nossa feijoada.
Voava, iluminando a todos com sua pele que brilhava ao encontrar filetes de sol.
O boto, depois da exemplar participação no almoço, voltou para casa de carro, preso na coleira para não sair pela janela. Medida esta necessária, para evitar que ele subisse de encontro a lua e nós, pobres, sentíssemos mais um adeus.
Ele fora adquirido no cemitério, no dia de finados, para alegrar nossa feijoada.
Voava, iluminando a todos com sua pele que brilhava ao encontrar filetes de sol.
O boto, depois da exemplar participação no almoço, voltou para casa de carro, preso na coleira para não sair pela janela. Medida esta necessária, para evitar que ele subisse de encontro a lua e nós, pobres, sentíssemos mais um adeus.
Vida em Borrões
Minha cabeça pouco pensa, é verdade. Minhas mãos pouco fazem. Tantos possíveis começos. Tanto mundo surrado, modernamente vulgar, tecnologicamente velho.
As vezes bom mesmo são as velhas tias que se dedicam a cuidar da arrumação da casa e do preparo da boa comida. Mãos habilidosas no artesanato útil da costura e da cozinha. Tem coisa mais digna no mundo que confortar e alimentar o outro? Tem coisa mais necessária? Acho que não.
Eu: ávida por novidades ultrapassadas, sofro do tédio de não poder fugir do óbvio. Assusta-me o ciclo da vida em cumprimento. Faço parte disso? Por que me desanimo tão rápido de tudo? Nasci torta.
O que é interessante?
Interessante para mim é tudo aquilo que parece conter uma veracidade divina.
Gosto daquilo que fala comigo como se fosse Deus.
Não sei o que é Deus, mas eu sou tão sozinha, estranho tanto o mundo humano, que só com um Deus por perto eu me sinto protegida da esquisitice deste mundo. Preciso que alguém me compreenda, nem que seja uma árvore, uma pedra ou uma nuvem. Sou mais irmã da luz crepuscular, da brisa noturna, do céu violeta das tempestades de verão do que da minha sociedade.
Não sei mais como fugir. Sinto que estou no lugar errado e tenho que esperar.
Gosto de literatura...Busco respostas. Busco, na verdade, portas. Tudo que quero é a saída desta incongruência.
Para fora ou para dentro, portas de um outro mundo, com matéria, substância manipulável.
Quero manipular massas palavras, massas fatos, massas processos, massas comida.
Meu mundo é inconsistente, feito de poeira lã e farelo de ossos em ventania: tudo de minha memória se esfria e emagrece de sentido; amiúda como eu não queria.
Se não é agora em mim, nunca será. Passa como se nunca tivesse sido.
Não sei o que fica. Eu queria massa.
As vezes bom mesmo são as velhas tias que se dedicam a cuidar da arrumação da casa e do preparo da boa comida. Mãos habilidosas no artesanato útil da costura e da cozinha. Tem coisa mais digna no mundo que confortar e alimentar o outro? Tem coisa mais necessária? Acho que não.
Eu: ávida por novidades ultrapassadas, sofro do tédio de não poder fugir do óbvio. Assusta-me o ciclo da vida em cumprimento. Faço parte disso? Por que me desanimo tão rápido de tudo? Nasci torta.
O que é interessante?
Interessante para mim é tudo aquilo que parece conter uma veracidade divina.
Gosto daquilo que fala comigo como se fosse Deus.
Não sei o que é Deus, mas eu sou tão sozinha, estranho tanto o mundo humano, que só com um Deus por perto eu me sinto protegida da esquisitice deste mundo. Preciso que alguém me compreenda, nem que seja uma árvore, uma pedra ou uma nuvem. Sou mais irmã da luz crepuscular, da brisa noturna, do céu violeta das tempestades de verão do que da minha sociedade.
Não sei mais como fugir. Sinto que estou no lugar errado e tenho que esperar.
Gosto de literatura...Busco respostas. Busco, na verdade, portas. Tudo que quero é a saída desta incongruência.
Para fora ou para dentro, portas de um outro mundo, com matéria, substância manipulável.
Quero manipular massas palavras, massas fatos, massas processos, massas comida.
Meu mundo é inconsistente, feito de poeira lã e farelo de ossos em ventania: tudo de minha memória se esfria e emagrece de sentido; amiúda como eu não queria.
Se não é agora em mim, nunca será. Passa como se nunca tivesse sido.
Não sei o que fica. Eu queria massa.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Todas as paredes tinham que ter seus ninhos...
Para que em dia escuro,
Sob nuvens de chumbo,
a gente pudesse se esconder do sol que impinge nossa sina:
Dói,
mas o que?
Escorre,
mas para onde?
Quebra,
e não vejo os cacos...
Preciso pertencer a vidas velhas.
Preciso.
Preciso de tecidos mortuários
contornando minha pele
Flores duras
Que do meu corpo saia o líquido
Que os ossos se depositem silenciosos e obedientes
(restritos)
sobre um chão escuro e tardio.
...
Olhos de folia, não por cima de mim!
Bocas de desejo
rasgadas em sorriso,
para fora das minhas lágrimas
Cães de marfim,
tenham piedade.
Hoje sou só um ser descarnado e cego
Gritando na mudez de entranhas tristes
Esqueçam-se de mim, mas esqueçam com compaixão.
Lembrem-se de mim, mas lembrem-se quando houver mar e ventania.
Amem-me, mas como quem ama a fatalidade da folha desgarrada do galho,
aquilo que não pode ser mudado,
os cabelos da medusa,
os encantos do destino,
os feitiços naturais.
Para que em dia escuro,
Sob nuvens de chumbo,
a gente pudesse se esconder do sol que impinge nossa sina:
Dói,
mas o que?
Escorre,
mas para onde?
Quebra,
e não vejo os cacos...
Preciso pertencer a vidas velhas.
Preciso.
Preciso de tecidos mortuários
contornando minha pele
Flores duras
Que do meu corpo saia o líquido
Que os ossos se depositem silenciosos e obedientes
(restritos)
sobre um chão escuro e tardio.
...
Olhos de folia, não por cima de mim!
Bocas de desejo
rasgadas em sorriso,
para fora das minhas lágrimas
Cães de marfim,
tenham piedade.
Hoje sou só um ser descarnado e cego
Gritando na mudez de entranhas tristes
Esqueçam-se de mim, mas esqueçam com compaixão.
Lembrem-se de mim, mas lembrem-se quando houver mar e ventania.
Amem-me, mas como quem ama a fatalidade da folha desgarrada do galho,
aquilo que não pode ser mudado,
os cabelos da medusa,
os encantos do destino,
os feitiços naturais.
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