Ela era tímida. Seu primeiro nome, Luzia; em pagamento a uma graça alcançada: sua saúde. – Não mais que por 60 anos. Seu apelido, Nicinha, ou Ni, como seu filho a chamava.
Tinha um violão, visitava seu primeiro professor de música todo ano no aniversário, levava presente.
Ensinou-me a cantar. As primeiras músicas de meu repertório foram Negro Gato e O Calhambeque. Depois diversificamos. Eu cresci e cantávamos bossa, boleros, marchinhas, sambas, caymmis, miltons, caetanos…
Tocava o violão, eu cantava.
Jogava peteca comigo no quintal. Dançava comigo na sala, me assistia a dançar.
Bolos. Ensinou-me o preparo de bolos, vários tipos. O pão-de-ló era eu quem começava depois de bater claras até que ficassem duras. Depois do açúcar ela é quem continuava pois em seguida viria o leite quente e o fermento – etapas que exigiam mais preparo.
Massa derramada sobre a forma e o pote vinha para minhas mãos para eu me deliciar com a sobra da mistura.
Conversávamos horas a fio sobre tudo, e qualquer coisa. – Ela sabe de todos os meus amigos. Nunca houve segredos.
Caminhar, caminhar, caminhar
Na beira do rio.
Dormia com ela tocando violão,
Acordava ouvindo Chopin ou Alaíde Costa, ou Bach…muitos
Bolos.
O violino no final da tarde. O cachorro sempre a seus pés, a proteger-lhe, a saborear-lhe a companhia.
Caminhar, caminhar, caminhar
Sempre na beira do rio, ou riachinhos.
Bolinhos de chuva quando havia chuva, recheados
Com banana ou goiabada?
Banana.
Para o seu irmão, goiabada.
Que sobremesa você quer que eu faça?
Seu cheiro, o melhor do mundo.
Seu sorriso, o que eu mais amava.
Sua pele,
meu contato, nosso tempo.
Suas prendas: costura, música, canto, comida, tapeçaria, cortes de cabelo, pintura de unhas,
A casa,
O piano que ela gostaria de ter na sala,
Amor, amor, amor, só amor sempre
Por todos.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Quando crescer...
Somos o que aprendemos a ler,
a sentir e a entender.
Queremos o que soubemos,
sentamos onde nascemos,
Vislumbramos o reaver das cinzas,
ajuntar os pedaços.
Fazemos o mundo a nossa imagem e semelhança, mas o mundo tem muitos
e paisagens, securas e fontes...
Não escolhemos onde.
Somos os desejos de ontem e de hoje,
os esquecidos, os persistidos,
realizados ou ressentidos.
As coragens e as covardias.
E a vida
repetida em prismas
Tem sempre um limite de faces
apoiadas sobre o rasgo da infância.
a sentir e a entender.
Queremos o que soubemos,
sentamos onde nascemos,
Vislumbramos o reaver das cinzas,
ajuntar os pedaços.
Fazemos o mundo a nossa imagem e semelhança, mas o mundo tem muitos
e paisagens, securas e fontes...
Não escolhemos onde.
Somos os desejos de ontem e de hoje,
os esquecidos, os persistidos,
realizados ou ressentidos.
As coragens e as covardias.
E a vida
repetida em prismas
Tem sempre um limite de faces
apoiadas sobre o rasgo da infância.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Por que não falar do sol? - A Divina Comédia
Desde aquele dia na pequena igreja do bairro quando aquele cachaceiro de braços finos e duros a ergueu tomando-lhe de súbito as axilas e rindo que ela soube: jamais teria sucesso na vida. E assim foi, a menina cresceu, esqueceu-se daquele episódio mas nenhuma sorte daquelas graúdas, que mudam a direção da sua vida para melhor, que lhe colocam em um novo mundo colorido e agradável tinha lhe acontecido. Ela sabia que esse tipo de sorte não era com ela, só as triviais: ganhar um convite para o cinema, uma bolsa na promoção do supermercado, aquele táxi que passou na hora certa quando estava atrasada, conseguir encontrar um banheiro a tempo quando não podia mais segurar; e também aquelas sortes estáticas que muitos chamam de anjo da guarda e impedem que coisas más ou trágicas lhe aconteçam, como quebrar um membro, sofrer acidentes, violências, abandonos; mas a grande sorte, a sena, o príncipe encantado, o olho de um caçador de talentos, jamais; não era para ela.
O destino nos é revelado nos detalhes, a menina sabia disso. Não queria pensar porque o tema parecia pouco consistente e ela era do tipo que acreditava no poder intrínseco do indivíduo, na força da própria opinião. Apesar de fugir dos livros de auto-ajuda, não tinha dúvidas de que o destino era uma estrada construída pela confiança, suor e o talho preciso de um caráter virtuoso. Tristes ilusões americanas que nunca encontravam espelho em sua realidade, ao contrário, era sempre o bêbado, o canastrão, o sátiro, que estavam por perto para zombar de suas convicções. Aquele riso sem contexto e eufórico que celebrou a menina no espaço santo era só o que o mundo lhe reservara. Salvo algumas penas, pois afinal o gato gosta de brincar muito com o rato antes de liquidá-lo, o destino da menina era o desejo empobrecido de homens carentes e frágeis. Ela tinha medo – ela sempre teve medo – porque não queria lutar, não veio para isso, mas a vida a impelia. Lutar para sofrer menos e não para ser feliz.
Um dia a menina viu Deus, Ele lhe pediu paciência e compaixão; ela pediu descanso; Ele não respondeu. Ela aceitou, mas não sem fazer aquela cara de resignação de quem quer deixar claro que não está feliz. Respirou e continuou. Não entendia porque Deus não sentia culpa pela sua infelicidade, e de outros, afinal ela sabia que não era a única a ter sido batizada por Suas mãos irônicas.
A bronquite na infância não fora por acaso, a pneumonia, precisava ter os pulmões fortalecidos pois iria suspirar muito. Os desejos lhe exauriam, qualquer hora ela sairia atirando, fazendo justiça – paciência demais desgasta. Ele a perdoaria: entende o que são urticárias, entende o cansaço, a escassez de saliva.
Hoje tenta fazer como Ele: ri, ignora, diverte-se sozinha, ama quando vê criança e lamenta.
O destino nos é revelado nos detalhes, a menina sabia disso. Não queria pensar porque o tema parecia pouco consistente e ela era do tipo que acreditava no poder intrínseco do indivíduo, na força da própria opinião. Apesar de fugir dos livros de auto-ajuda, não tinha dúvidas de que o destino era uma estrada construída pela confiança, suor e o talho preciso de um caráter virtuoso. Tristes ilusões americanas que nunca encontravam espelho em sua realidade, ao contrário, era sempre o bêbado, o canastrão, o sátiro, que estavam por perto para zombar de suas convicções. Aquele riso sem contexto e eufórico que celebrou a menina no espaço santo era só o que o mundo lhe reservara. Salvo algumas penas, pois afinal o gato gosta de brincar muito com o rato antes de liquidá-lo, o destino da menina era o desejo empobrecido de homens carentes e frágeis. Ela tinha medo – ela sempre teve medo – porque não queria lutar, não veio para isso, mas a vida a impelia. Lutar para sofrer menos e não para ser feliz.
Um dia a menina viu Deus, Ele lhe pediu paciência e compaixão; ela pediu descanso; Ele não respondeu. Ela aceitou, mas não sem fazer aquela cara de resignação de quem quer deixar claro que não está feliz. Respirou e continuou. Não entendia porque Deus não sentia culpa pela sua infelicidade, e de outros, afinal ela sabia que não era a única a ter sido batizada por Suas mãos irônicas.
A bronquite na infância não fora por acaso, a pneumonia, precisava ter os pulmões fortalecidos pois iria suspirar muito. Os desejos lhe exauriam, qualquer hora ela sairia atirando, fazendo justiça – paciência demais desgasta. Ele a perdoaria: entende o que são urticárias, entende o cansaço, a escassez de saliva.
Hoje tenta fazer como Ele: ri, ignora, diverte-se sozinha, ama quando vê criança e lamenta.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Eu: mulher, carente, desterrada.
Vou dizer a ele que estou doente, que deixei a lógica e o discernimento de lado e agora estou na cama esperando a sopa. Mas sei que ninguém virá com o prato de jantar. - Eu e Nijinski escrevemos muito sobre nossos estômagos.
Não me importa o sentido das coisas, este artigo é na desordem do meu pensamento sem juíz, é quando toco meus sonhos sem precisar adormecer.
Direi que não quero mais sexo casual, quero romance. Cansei da pobreza de nossa relação. Quero vida, intensidade, motivação. Quem é que tem motivação hoje em dia? Acho que existem obsessões mais do que motivos.
Vou embora. Mais uma cidade arruinada, esgotada. Hora de esgotar outra. Canso-me dos lugares quando ali não encontro mais nada que aqueça meu corpo, que me dê energia. As árvores estão velhas, o mar, coisa dos burgueses e o resto é precariedade. Não gosto de inventar objetivos, pois acho que os objetivos são necessidades que nascem por si mesmas; se não nascem há algo errado. - Pelo menos quando mudo de cidade a necessidade de existir dentro do novo acontece e me estimula à recriação.
Hoje ele não irá me chamar porque sabe que estou menstruada. Ele quer sexo, eu quero romance.
Não me importa o sentido das coisas, este artigo é na desordem do meu pensamento sem juíz, é quando toco meus sonhos sem precisar adormecer.
Direi que não quero mais sexo casual, quero romance. Cansei da pobreza de nossa relação. Quero vida, intensidade, motivação. Quem é que tem motivação hoje em dia? Acho que existem obsessões mais do que motivos.
Vou embora. Mais uma cidade arruinada, esgotada. Hora de esgotar outra. Canso-me dos lugares quando ali não encontro mais nada que aqueça meu corpo, que me dê energia. As árvores estão velhas, o mar, coisa dos burgueses e o resto é precariedade. Não gosto de inventar objetivos, pois acho que os objetivos são necessidades que nascem por si mesmas; se não nascem há algo errado. - Pelo menos quando mudo de cidade a necessidade de existir dentro do novo acontece e me estimula à recriação.
Hoje ele não irá me chamar porque sabe que estou menstruada. Ele quer sexo, eu quero romance.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Pensamentos e sons noturnos
Sei que um dia vou cometer o suicídio. Sinto minhas vísceras cansadas, velhas; elas me trairão cedo ou tarde, mas não será por vingança, será por tristeza. Minhas vísceras são sem esperança; são fortes e disseram que lutariam até o fim mas estão chorando.
Tenho pena do homem que tosse toda a madrugada, o silêncio e sua tosse são a madrugada. A tosse me desespera, que corpo pode suportar tamanha trepidação por horas? Um dia a casa cai. As convulsões são carrascos que açoitam sem pausa, lançam-lhe por toda a sala. Quantos vulcões ainda explodirão desejando me rasgar, me expulsar de mim, quantos eus me odeiam e querem a independência? Sei que um dia me trairei. Eu não sou um reino em paz. Um dia minha pele se abrirá e meus organismos fugirão para a terra, todos eles – toda vida deseja renascer diferente, toda vida deseja novas alianças, novas… –, e eu ficarei oca, sozinha, perdendo, perdendo, perdendo. – Acho que rirei.
Não terei filhos, não ei de salvar-me em outra união, rirei.
O filho é a fuga, a estratégia de salvaguarda dos tesouros, a tradição. Não fugirei, deixarei que tomem tudo o que desejarem, rirei. Quero rir dos açoites, quero que meu organismo não vença, que perca o sentido. Quero que a guerra seja inútil. Pena de mim? Sim.
Procuro uma maneira de entrar sem ver sangue, não gosto de sangue, ele me desespera. Entrar saltando ou entrar dormindo? Hoje eu acordei, não esperava. Eu sempre me surpreendo com minhas vísceras que ainda funcionam; como conseguem? Mas eu disse: elas me trairão, e irão fazer quando eu não quiser porque querem meu sofrimento.
Por que ela me pedia ajuda? Por que ela perguntava o que estava acontecendo? Ela se desesperara. Sofria, sofria muito; como se se afogasse por dias. Torturaram-na. Nunca vi tanta crueldade, dos homens e dos deuses. A vida é má. E eu só tinha amor.
Um dia sei que vou cometer o suicídio. Não me desesperarei, não perguntarei o que está acontecendo, não pedirei ajuda. Rirei e a guerra será inútil.
Tenho pena do homem que tosse toda a madrugada, o silêncio e sua tosse são a madrugada. A tosse me desespera, que corpo pode suportar tamanha trepidação por horas? Um dia a casa cai. As convulsões são carrascos que açoitam sem pausa, lançam-lhe por toda a sala. Quantos vulcões ainda explodirão desejando me rasgar, me expulsar de mim, quantos eus me odeiam e querem a independência? Sei que um dia me trairei. Eu não sou um reino em paz. Um dia minha pele se abrirá e meus organismos fugirão para a terra, todos eles – toda vida deseja renascer diferente, toda vida deseja novas alianças, novas… –, e eu ficarei oca, sozinha, perdendo, perdendo, perdendo. – Acho que rirei.
Não terei filhos, não ei de salvar-me em outra união, rirei.
O filho é a fuga, a estratégia de salvaguarda dos tesouros, a tradição. Não fugirei, deixarei que tomem tudo o que desejarem, rirei. Quero rir dos açoites, quero que meu organismo não vença, que perca o sentido. Quero que a guerra seja inútil. Pena de mim? Sim.
Procuro uma maneira de entrar sem ver sangue, não gosto de sangue, ele me desespera. Entrar saltando ou entrar dormindo? Hoje eu acordei, não esperava. Eu sempre me surpreendo com minhas vísceras que ainda funcionam; como conseguem? Mas eu disse: elas me trairão, e irão fazer quando eu não quiser porque querem meu sofrimento.
Por que ela me pedia ajuda? Por que ela perguntava o que estava acontecendo? Ela se desesperara. Sofria, sofria muito; como se se afogasse por dias. Torturaram-na. Nunca vi tanta crueldade, dos homens e dos deuses. A vida é má. E eu só tinha amor.
Um dia sei que vou cometer o suicídio. Não me desesperarei, não perguntarei o que está acontecendo, não pedirei ajuda. Rirei e a guerra será inútil.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Não é coisa de geladeira
- Ahn? Ah, tá, o amor, né?
- Sim.
- Não, eu vou pegar daqui a pouco, mas pode continuar mandando.
(Pausa)
- Estou cansada.
(Pausa)
-Olha, não precisa jogar no meu pé, não! Põe ali no cantinho - Pena que não tem geladeira... - que depois eu pego.
-Eu vou embora.
- Ah, já?! É cedo.
- Estou cansada.
- Ah...então tá bom. Tchau.
- Tchau.
(Ela vai sair)
- Eih, tá tudo bem com você?
- Ahan, tudo bem.
- Não deu muito trabalho colocar lá no canto, né?
- Não.
- Então tá.
- Tá...Tchau.
- Tchau.
Ela vai embora.
Encontra um dia fulano.
- Oi!
- Oi!
- E aí, como você está?
- Bem, na rotina.
- Nossa, eu tive em não sei onde, fiz não sei o quê, ciclano me chamou para isso, para aquilo, ganhei não sei o quê, conheci não sei quem, vou fazer isso, aquilo e mais aquilo outro!!
- Legal! E o amor?
- Ahn? Ah, o amor... Nossa, é verdade, o amor que você me deu, né?...Tá lá em casa...
(Pausa)
- Você quer mais.
- Pô, quero. Se você puder me dar.
- Não sei...
- Ah, eu queria mais, pô! É que aquele lá não deu para aproveitar. Mas você fica à vontade...Eu estou em casa, qualquer coisa...
- Tá bom. Eu vou ver se dar.
- Então, falô!
- Falô...tchau.
- Tchau.
Como uma mãe que continuava a produzir leite mesmo depois do filho ter desmamado, ficava ela a produzir amor por fulano.
No dia em que parou, por cansaço, ele sentiu falta, estava acostumado com o cheiro podre daquele amor desperdiçado a seus pés. De qualquer jeito, aquilo não era tão importante assim, afinal fulano tinha coisas mais urgentes para fazer. Havia pessoas que davam coisas melhores a fulano, coisas que ele apreciava mais, como dinheiro. O amor apodrecido era só um capricho: ele achava gostosinho ela ali em sua casa lançando vida aos pedaços. Gostava do cheiro doce e suave que exalava de seu amor inútil a estragar pelos cantos da casa. Aquele aroma enchia sua vida do insubstituível prazer de matá-la aos poucos por indiferença.
A indiferença:
Pela morte nós perdoamos, não pelo abandono.
Amor arremessado no vazio
Amor
Qual a razão de uma coisa existir sozinha?
Existir para o que não existe, qual a razão?
Fluxo que vai e não volta, por quê?
Um corpo que infla de tristeza por produzir vazios.
Existir para o que não existe,
morte em vida,
viver matado.
Demitida da sociedade aos vinte anos.
Agora faço coisas em vão, nada do que faço me interessa, se aproveita.
Quem ler isto, talvez diga: "Nossa, que coisa clichê! Palavras de uma adolescente frustada - e com frustrações típicas; o pior!"
É verdade, frustrações típicas,...porém tão profundas e verdadeiras.
...
Imagina ele chegando de surpresa. Ela se alegra.
É humilhante amar sozinho.
É aviltante dar, dar, dar, dar,...e ver tudo ficar no chão, aos pés, estragando.
- Simpático da sua parte esse amor todo, obrigado.
- Então pega! Não gosta?
- Ahn?! Ah, gosto sim, é muito bom! Ficarei feliz se puder sempre me dar.
- Sim, farei isso. (Pausa) Mas você não pega!
Acabou.
- Sim.
- Não, eu vou pegar daqui a pouco, mas pode continuar mandando.
(Pausa)
- Estou cansada.
(Pausa)
-Olha, não precisa jogar no meu pé, não! Põe ali no cantinho - Pena que não tem geladeira... - que depois eu pego.
-Eu vou embora.
- Ah, já?! É cedo.
- Estou cansada.
- Ah...então tá bom. Tchau.
- Tchau.
(Ela vai sair)
- Eih, tá tudo bem com você?
- Ahan, tudo bem.
- Não deu muito trabalho colocar lá no canto, né?
- Não.
- Então tá.
- Tá...Tchau.
- Tchau.
Ela vai embora.
Encontra um dia fulano.
- Oi!
- Oi!
- E aí, como você está?
- Bem, na rotina.
- Nossa, eu tive em não sei onde, fiz não sei o quê, ciclano me chamou para isso, para aquilo, ganhei não sei o quê, conheci não sei quem, vou fazer isso, aquilo e mais aquilo outro!!
- Legal! E o amor?
- Ahn? Ah, o amor... Nossa, é verdade, o amor que você me deu, né?...Tá lá em casa...
(Pausa)
- Você quer mais.
- Pô, quero. Se você puder me dar.
- Não sei...
- Ah, eu queria mais, pô! É que aquele lá não deu para aproveitar. Mas você fica à vontade...Eu estou em casa, qualquer coisa...
- Tá bom. Eu vou ver se dar.
- Então, falô!
- Falô...tchau.
- Tchau.
Como uma mãe que continuava a produzir leite mesmo depois do filho ter desmamado, ficava ela a produzir amor por fulano.
No dia em que parou, por cansaço, ele sentiu falta, estava acostumado com o cheiro podre daquele amor desperdiçado a seus pés. De qualquer jeito, aquilo não era tão importante assim, afinal fulano tinha coisas mais urgentes para fazer. Havia pessoas que davam coisas melhores a fulano, coisas que ele apreciava mais, como dinheiro. O amor apodrecido era só um capricho: ele achava gostosinho ela ali em sua casa lançando vida aos pedaços. Gostava do cheiro doce e suave que exalava de seu amor inútil a estragar pelos cantos da casa. Aquele aroma enchia sua vida do insubstituível prazer de matá-la aos poucos por indiferença.
A indiferença:
Pela morte nós perdoamos, não pelo abandono.
Amor arremessado no vazio
Amor
Qual a razão de uma coisa existir sozinha?
Existir para o que não existe, qual a razão?
Fluxo que vai e não volta, por quê?
Um corpo que infla de tristeza por produzir vazios.
Existir para o que não existe,
morte em vida,
viver matado.
Demitida da sociedade aos vinte anos.
Agora faço coisas em vão, nada do que faço me interessa, se aproveita.
Quem ler isto, talvez diga: "Nossa, que coisa clichê! Palavras de uma adolescente frustada - e com frustrações típicas; o pior!"
É verdade, frustrações típicas,...porém tão profundas e verdadeiras.
...
Imagina ele chegando de surpresa. Ela se alegra.
É humilhante amar sozinho.
É aviltante dar, dar, dar, dar,...e ver tudo ficar no chão, aos pés, estragando.
- Simpático da sua parte esse amor todo, obrigado.
- Então pega! Não gosta?
- Ahn?! Ah, gosto sim, é muito bom! Ficarei feliz se puder sempre me dar.
- Sim, farei isso. (Pausa) Mas você não pega!
Acabou.
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