sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Folha Solta


Atacada de liberdade,
Perseguiu-me desesperada,
Rolando suplicante pelo chão.
Dei de banda, pois,
Não queria ouvir o seu lamento.

Porém, quando bateu à porta a noite,
A notícia: a folha estava morta.
E foi de golpe de vento.
Seu cadáver na minha porta,
Com a culpa indesculpável a seu lado
Indagando-me:
Por que não acudi a tempo?

Sem razão, e já com a infeliz sobre a mão,
Disse-lhe baixinho, envergonhada:
Não entendi que clamava pela árvore mãe,
Tomei-lhe por vegetal a lastimar a independência.

Hoje, na tarde de ventania – eu não sabia –
Fui seguida por uma folha livre
Que morria...

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Da matéria


E as horas que caem dos telhados
deixam cruas as distâncias entre meus lados.
Vida de misturas viscosas,
envelhecendo acordada (não cozida)
dentro da geometria temporal
dessa esperança lúdica,

talhada humores lúbricos,
na gosma desvairada de coisas infinitas: 

Sentido Mundo.      

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

De dores, as mais delicadas

Sabe do que eu precisava?
Eu precisava da ajuda de uma estrela triste.
Aprender como ficar pequenininha, pequenininha,
até desaparecer.

Saber como apagar, apagar,...
no dever de ser fiel somente à discrição deste universo escuro.
Só sou
Não sei
Um coração a bater a esmo.

domingo, 21 de outubro de 2012

Divagações de Uma Noite Estática


Vamos ao que interessa: esta noite.

Não há vento. As árvores estão duras, plasticamente paradas.
Só há insetos pesados à minha volta. Aqueles cascudos cujo calor faz despencar do céu para a morte do amanhecer. Amanhã estarão todos mortos de pernas para cima, bamboleando sobre a casca oval.
Estou parada como o ar. Não conseguiria muitas palavras esta noite. Não conseguiria as muitas pessoas daquela praça esta noite.
Estou morna como o ar. Quieta como o vento. Atrás de minha pele tudo é morno também.
Esta noite é matéria orgânica. É dia. Os homens podem andar sem camisa nela – e o fazem.
Só penso em uma pessoa. Nesta noite morna. Não sei o que penso, vejo. Peso. Sopé.
Silêncio combina com calor ou com o frio?
Com calor tudo parece mudo, tudo parece bobo. Um assassinato: bobo. Um grito: fútil. Uma dor: inútil.  Com o frio a razão se assemelha. 

.........................................

Fala baixinho, Ana. Cochicha para essas paredes o que você não pode enunciar aqui. Elas são discretas, brancas para disfarçar o que não tem tamanho.  Eu sou branco também, um simulacro de papel; como vê. Mas eu falo alto demais, e as paredes não vagueiam como eu.
Fala para elas o que eu sei antes de você. Fala dos seus vícios, das suas brechas, da sua falsa desfaçatez. Conta de seus desejos e de suas insalubres ideias. Não liga, não. As paredes são aliadas: guardarão para sempre – mesmo depois de caídas – tudo seu que só cabe a elas.   

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A lasca vespertina.

Um dia deflagrado.
Uma cadeira mirando outra.
Três velhos compenetrados
no chão.

Alguns livros bagunçados na parede.
Minha catástrofe em cinza tarde
a mirar

(vinte para as quatro no relógio)

uma gélida emoção.

E lá estava esquecido o buraco vespertino:
no meio do colo deste meu derrame bobo.


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ainda Anonimus Nus

O azul arde quando há lua,
crua.
Pura carne,
vermelha e nua.


O azul arde
quando flutua
A noite adentro.

E eu na tua

Espera.