segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Poema para a covardia dos tempos

Só sei que quando é para
Ser do jeito que a gente quer
A gente faz dar certo
Nem que o certo seja errado.
Faz dois mais dois virar cinco
Faz mosquito virar brinco
Faz besteira parecer inteligência
Torna caixa de marimbondo, chapéu.

Só sei que se for para
Ser do jeito que a gente quer
Até mais burro a gente fica
Tapa o sol com a peneira,
Coloca a viseira
Grita para não ouvir!

Do jeito
Do jeitinho que a gente quer
Acreditar (para não morrer de medo)
A gente vai
Plantando pedra
Dando cabo da felicidade.

domingo, 11 de março de 2018


Sou uma fêmea
Fêmeas não têm direitos
Fêmeas não são gente
Fêmeas são máquinas da natureza
Cativas da vida, cativas de homens, cativas de crias, cativas de família, cativas do sistema.
Produtoras de carne, produtoras de sangue, produtoras de alimento e força de trabalho
Reprodutoras
Vacas, porcas, cadelas...
Só as putas são mulheres,
Só as bruxas são humanas.    
E só as filhas de uma puta mostram os dentes pela própria liberdade.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Me ame, me ame, me ame
como se ama uma paisagem paradisíaca!
Sinta o meu bem como se respira o ar fresco da manhã
E não me queira.
Não me queira caída no chão de sua casa,

Entre suas quinquilharias.

domingo, 1 de setembro de 2013

Estávamos no tempo das lembranças fantásticas:
Éramos todos vaga-lumes da floresta cega.
Éramos todos bocas abertas da planície sem ar.
Cantávamos mímica
e sacudíamos os iluminados traseiros lá,
na noite única do esquecimento.


Ninguém nunca soube. 

sábado, 8 de junho de 2013

Pego por várias arestas...
Mas seria possível: uma coisa ser geométrica e não tem forma alguma?
Pois é assim com as coisas quebradas. Pois é assim com as distâncias infinitas. Assim comigo.

Habito horizontes que nunca vi.  

Fim Imperceptível

Não precisa dizer nada,
O tempo bastará.
Como bastou outrora  
o desejo e a indolência nas superfícies quentes.

Passaremos por esta manhã
 (E algumas mais)
A deixar aquele sonho deformar-se
- E um bocado dos nossos doces olhares -
Até que não nos reconheçamos mais.

Sem respiração.
Sem acusação.
Ambos cobertos por roupas
indiferentes àquelas reluzentes sensações.       

sexta-feira, 29 de março de 2013

Do ar: humores transparentes


Pula a bolha
Na minha blusa.
Lambuza
De película tonteante
O sabão – alquimista valente a voar em revoluções diáfanas coloridas.

Na roupa colou, estourou,
babou toda sua alegria...

(visco flutuante)

A veste adoçou o sabão de vermelho...

Então ele disse adeus ao sonho de ser nuvem, 
E ela: 
ficou toda molhadinha.