sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Folha Solta


Atacada de liberdade,
Perseguiu-me desesperada,
Rolando suplicante pelo chão.
Dei de banda, pois,
Não queria ouvir o seu lamento.

Porém, quando bateu à porta a noite,
A notícia: a folha estava morta.
E foi de golpe de vento.
Seu cadáver na minha porta,
Com a culpa indesculpável a seu lado
Indagando-me:
Por que não acudi a tempo?

Sem razão, e já com a infeliz sobre a mão,
Disse-lhe baixinho, envergonhada:
Não entendi que clamava pela árvore mãe,
Tomei-lhe por vegetal a lastimar a independência.

Hoje, na tarde de ventania – eu não sabia –
Fui seguida por uma folha livre
Que morria...

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Da matéria


E as horas que caem dos telhados
deixam cruas as distâncias entre meus lados.
Vida de misturas viscosas,
envelhecendo acordada (não cozida)
dentro da geometria temporal
dessa esperança lúdica,

talhada humores lúbricos,
na gosma desvairada de coisas infinitas: 

Sentido Mundo.      

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

De dores, as mais delicadas

Sabe do que eu precisava?
Eu precisava da ajuda de uma estrela triste.
Aprender como ficar pequenininha, pequenininha,
até desaparecer.

Saber como apagar, apagar,...
no dever de ser fiel somente à discrição deste universo escuro.
Só sou
Não sei
Um coração a bater a esmo.

domingo, 21 de outubro de 2012

Divagações de Uma Noite Estática


Vamos ao que interessa: esta noite.

Não há vento. As árvores estão duras, plasticamente paradas.
Só há insetos pesados à minha volta. Aqueles cascudos cujo calor faz despencar do céu para a morte do amanhecer. Amanhã estarão todos mortos de pernas para cima, bamboleando sobre a casca oval.
Estou parada como o ar. Não conseguiria muitas palavras esta noite. Não conseguiria as muitas pessoas daquela praça esta noite.
Estou morna como o ar. Quieta como o vento. Atrás de minha pele tudo é morno também.
Esta noite é matéria orgânica. É dia. Os homens podem andar sem camisa nela – e o fazem.
Só penso em uma pessoa. Nesta noite morna. Não sei o que penso, vejo. Peso. Sopé.
Silêncio combina com calor ou com o frio?
Com calor tudo parece mudo, tudo parece bobo. Um assassinato: bobo. Um grito: fútil. Uma dor: inútil.  Com o frio a razão se assemelha. 

.........................................

Fala baixinho, Ana. Cochicha para essas paredes o que você não pode enunciar aqui. Elas são discretas, brancas para disfarçar o que não tem tamanho.  Eu sou branco também, um simulacro de papel; como vê. Mas eu falo alto demais, e as paredes não vagueiam como eu.
Fala para elas o que eu sei antes de você. Fala dos seus vícios, das suas brechas, da sua falsa desfaçatez. Conta de seus desejos e de suas insalubres ideias. Não liga, não. As paredes são aliadas: guardarão para sempre – mesmo depois de caídas – tudo seu que só cabe a elas.   

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A lasca vespertina.

Um dia deflagrado.
Uma cadeira mirando outra.
Três velhos compenetrados
no chão.

Alguns livros bagunçados na parede.
Minha catástrofe em cinza tarde
a mirar

(vinte para as quatro no relógio)

uma gélida emoção.

E lá estava esquecido o buraco vespertino:
no meio do colo deste meu derrame bobo.


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ainda Anonimus Nus

O azul arde quando há lua,
crua.
Pura carne,
vermelha e nua.


O azul arde
quando flutua
A noite adentro.

E eu na tua

Espera.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Anonimus nus

O azul ardente
À noite dura.

As falácias vivas
A alma (a)pura.

domingo, 30 de setembro de 2012

Na janela,
de repente
um pássaro.

Não,
um ACONTECIMENTO!


Constatação de Íris 
(fantástica criança, neta de um grande amigo).

Esses presentinhos que nos chegam dos amigos pelas luminosas fibras óticas.


(De Bruno Darcoleto Malavolta):

Ana é talvez de luzes
de Vasco e Cellos sob um nevoeiro.

Música ofuscada
entre folhas.
Desfeito o ninho, é

pássaro
sem espécie:

é inútil seguir Ana, que sem guia
não obstante obscura se irradia.

(Que caminho seguir a seguir Ana?)

Orfeu,
Eurídice,
Antígona,

antes Luísa,
depois Ana.

Doce Ana: mato em flor, flor de mato.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A Realidade da Hipótese

O povo chega aqui buscando coisa.
Eu cheguei buscando coisa.
Eu cheguei buscando o mundo,
mas o mundo das coisas,
o mundo das minhas certezas ocultas,
minhas (des)confianças todas.
Aquilo de que sei
mas não sei dizer,
não sei fazer,
não sei dançar.

Cheguei aqui buscando nomes,
mas os nomes não vieram.
Acho que eles continuam
é escondido atrás das árvores,
debaixo das pegadas,
na pulga atrás da orelha.

Tenho a impressão de que estou viva,
e os meus amigos,
essas conversas nossas.

Mas o que estou falando é sensação, ora essa!

Esse sentimento descarnado,
feito de poucas proteínas,
etéreo, vindo não se sabe donde.

Tenho a impressão que passa o dia,
mas se não durmo
é ele ainda.
Se não como,
é ele em nada.

Tudo que posso imaginar é possível:
 só não se sabe onde, não se sabe quando.

Até onde a realidade resiste à sua hipótese?

Quebre a casca
para quebrar as cadeiras!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


Esse negócio de poesia é meio briga.
Briga com qualquer pedaço de pão,
lamela, trunfo ou bateria.
Quando a gente quer um sonido a mais
um beijo no cais,
a troca do hoje pelo amanhã de ontem
e todas aquelas coisinhas que vagam pelo interstício do sonho das calçadas.

Um estalido de não sei
Um roça-roça de alfinetes coloridos
Nas tranças de um céu carapinhado.
Um chupão de marimbondo caboclo
Que faz dor mas mela o sangue de euforia: “tô vivo e com raiva!”

Esse negócio de poesia é meio briga
Briga com qualquer sabedoria que
Não sinta o bocado de bagunça
Do dia que enfia outro dia
No fundo da noite imparcial.
Com qualquer sabedoria desentendida
Dos bichos nadadores que flutuam em nossas sombras,
Tornam o nicho o bucho da baleia encantada
das horas-faísca
E nos contam da letal perseverança celular 
nos olhos abertos, perplexos, de vagar.   
CERTO
(IN)CERTO
CERTÃO

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Algumas pequenas dicas para ganhar em qualidade de vida:

 Sempre que possível, ande descalço;
sente no chão; 
role sobre o chão. 
Acocore-se.
Joque as pernas para trás da cabeça 
e a cabeça para a frente das pernas. 
Trepe em árvores.
Pendure-se nos postes pela rua.
Faça caretas;
olhe para cima (não se esqueça das estrelas);
incline-se para as laterais, para a frente e para trás, sentindo o puxão da Terra.
Chacoalhe os braços no ar;
Ande um pouco sobre quatro apoios: braços e pernas.
Mastigue vento imaginando coisas deliciosas;
espalme as mãos e os pés para frente.
Experimente girar;
experimente deixar-se cair;
Dá de que vai, mas não vai: inverta o rumo do passo.
Tente novamente a descoberta do corpo, tal como um dia fez na infância;
e dance. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Gostaria de fluir na ideia como fluo com o corpo. 
Meus pensamentos são repletos de nódulos.

sábado, 15 de setembro de 2012

Acho que chegou a hora de experimentar alguma psicodelia. Já cansei de minha companhia: caímos na rotina sem perspectiva de fantasia. Ando sem mistério para me descobrir.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Atração


Gosto de vidros azuis saltando discretamente de florestas noturnas.
Como lago sob a luz da lua.
Gosto de rostos amadeirados,
como que talhados por mãos antigas,
de outras margens de mar.
Gosto de gestos que flutuam como um sorriso em tempo manso reluzindo os vidros.
Gosto do fino no rústico.
Do suave no áspero.
O grande no sutil.
Um lindo dia com pouco de suor e rubor avançando em ondas de voz macia.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Lembranças da solidão

Soraia não era. Penso este nome agora, no momento em que imagino a porta a se mover só. 
Ele me contou hoje alguma coisa de sua história: atravessou iguarias do mundo comercial, ganhou muito dinheiro para a pouca idade...Quase um Marco Pólo denso: de longas viagens por poucos kilômetros. Ele é um inventor de si - poucos ousariam sê-lo. Largou "tudo", no entanto, para ser outro. 
Com ele reví-me: sem metamorfoses. Tinha sempre sido outra. Mas hoje, depois da sua história, olhei no espelho e lembrei dela, minha espera. Soraia não era, seu nome era outro - mas prefiro não dizer: é muito meu. Sou sua espera, seu tempo esticado nos arredores. Quando nos veremos? 
Sonhei com ela (ele também) noite passada, mas me recordo somente de um abraço; um abraço imagético: uma projeção a que assistia. 

 E fico... Estado de permanência... 

Quantos anos mais meu sorriso há de envelhecer até que passe essa solidão de não poder mais dizer: mãe?        
Cada vez mais precisaremos de aspas para falar. Penso que isso sugere que precisamos reinventar a língua: anda nos faltando palavras.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Três aforismas sobre o medo

Quem tem medo não vive entediado.

O medo é um excelente motivador.

Não existe niilismo onde existe o medo.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O que não causou o silêncio?

Uma demolição em série.
Quem diria que ia dar nisso?
Alguma tristeza,
muitas dúvidas,
uma vontade
e três poemas.

O que queria?
Tornar-se um pouco de memória em mim.


.................................................................

Mas você ainda não sabe que viver exige menos.
Ainda não conhece a inércia do tempo,
acha que tem muito a ser feito.
Tem não.
Verás que uma hora a onda quebra e o mar tonteia
sem saber sentido, puro vazio.
...............................................................


Sem medo de ter coragem
agiu:
com as formigas saltou do trampolim.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Poema para Ana Luisa
          (Fernando Carlos Delatti)



"Vejo o perfil de teu corpo projetado nas areias tépidas dos caminhos das gerais
Vais flanando sobre rodas
Rodas que se articulam em engrenagens metálicas, tirantes de aço, cabos de força,
...Nos dando uma imagem duplicada de ti. Há um só tempo, energia e leveza,
força e graça, equilibrio e fuga...
mas vais sozinha
Que tanto buscas, viajor, em tua senda infinita ?
Deslumbrastes mundos que desconhecemos ?
ou nada buscas e nos da a lição do permanente caminho ?
Quem vem e vai, quem parte e fica, nesse mundo de aparências ?
..." o sertão é em toda a parte..."
Quem como tu aprendeste na alma essa verdade ?
És um corpo que se move e baila nos andamentos da música interior
Aos que te conhecem ( e saõ tão raros ) tens o poder de iluminá-los, pois,
Há uma luz que não percebes, a te conduzir pelos caminhos
Há uma luz que te fizestes e
Nos apontam meridianos
Uma mensagem é o que vem de ti
A verdade de uma vida valorosa
Desaparelhada do que é tangível e fraco
Do que esteja em acordo com o não eu
Ser humano em verdade
Um sorriso discreto
Uma palavra mais leve
Um compromisso de ser o que se é
Uma chegada conquistada sem ponto de partida

...travessia..."

sábado, 4 de agosto de 2012

O amor que se tem e não se dá não é nada.
Então por que tem, por quê?! (André Ribolli)
Porque também somos feitos de ilusão.

domingo, 29 de julho de 2012

A gente começa por arranhar a folha.
Ensaia algum movimento, denuncia e recua:
Titubear é do nosso caráter.

Acabamos escrevendo qualquer coisa num impulso animal.
É o que nosso corpo sabe fazer: achar e dizer.
A vergonha vem depois,
como se exibir palavras fosse doença.

Bolas
Balas
Gotas
Cinzas

É som de chuva.
Esperemos...
Passou.
E só foi aqui,
a lua continua seca,
o céu preto parado.
Estrelinhas
ainda olhando com expectativa.

Só a história andou.
Dançou muda
no tempo.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

De lugares bonitos

Faz uns anos, conheci um rapaz. É difícil eu reparar em beleza de homem, mas, curiosamente, com este aconteceu o contrário; a primeira coisa que pensei ao vê-lo foi: que bonito.

Beleza é uma coisa curiosa: emana; seja de que natureza for. Não sei até onde a beleza é uma relação entre o observador e o observado, ou se é mesmo um objeto, um substantivo concreto. Sei que existe e deixa o mundo mais... cheiroso.

Mas beleza não é necessariamente formal, depende também de outros fatores. Neste caso, da inocência revelada por um olhar curioso, uma vontade de se arriscar ainda que sob muitas incertezas e desejos insustentáveis.

O rapaz era assim: um atrapalhado discreto, cujo doce sorriso delatava sua ignorância decorada com palavras e sonhos. Tinha sempre os olhos úmidos e brilhantes, por onde podíamos ver sua alma engraçada, quase patética; mas um pouco trágica também, é verdade. Ele, no entanto, se amparava muito bem sobre sua coluna vertebral, parecendo confortável sob seus ângulos simétricos. O andar era leve, porém não descontraído; conservava seus movimentos de forma a desenhar um corpo educado e elegante. Poucas vezes recorria a curvas ou dobras em suas poses, que apareciam sobretudo quando descansava do medo de sua ignorância. Aí então, dobrava um joelho sobre o banco, apoiava o cotovelo no vértice da perna e largava a cabeça para trás, preenchendo-a com aqueles sorrisos que agora já demonstravam mais confiança.

A beleza que vi não podia deixar também de conter certa tristezazinha. Ele era do tipo que gostava de um sofrimento para valorizar. Fazia como se fosse experimentado na vida, entendido de muitas passagens e reentrâncias dos sentimentos, mas que nada: era um desesperado que se perdia fácil com um único beijo, e apostava na dor romântica para reencontrar-se como amante. Sofria então das penas que inventava. Mais uma vez: atrapalhado. Um equilibrista de corda bamba a meio centímetro do chão, que emanava beleza, pois; a exata dos perplexos inocentes que respiram poesia.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Bem assim

Quero assim, sem precisões, na paz das vacas.

Quando o mundo só está.

Esta brisazinha quente que anuncia chuva...

Quero assim mesmo, no colocado,
sem demanda, sem caractere.
No eu aqui, você lá, eles por aí,
e nenhuma querência.

Uma preguiça bem encaixada no tempo
dizendo que não há tempo,
pressa dos acontecimentos.

- Se vamos morrer? É claro que vamos. Então para quê urgência?

Só o prazer
de não achar que falta,
de não pensar que devia,
de não querer que fosse.

Quero assim:
no conforto de acordar sem saudade,
sem desejo de alteridade.

No sentimento de ser só mais uma
coisa posta.
Um pedacinho de nada.

domingo, 17 de junho de 2012

Quantas palavras precisam ainda ser inventadas para materializar o impossível?
Para quem eu poderia contar da saudade que sinto dela senão para ela?
Ela que já não ouve,
que não está aqui para um chá quente.

............................................................

Um toque no coração
Uma breve pausa na respiração
E é tudo.

..........................................................

Para quem posso existir como era para ela?
Numa caixa de outrora escondeu-se nossa vida
Ela desligou e eu fui para o exílio.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O mar encerra a terra.
Cobre-lhe com um beijo eterno
E peixes-versos
Calados em sensação.

O mar é pulso mudo
Ensaio de parto
Respiração de boi
Memórias em natação

Os peixes
Os sonhos que ainda não sonhei
Mistérios em azul unção.

Movimentos subterrâneos
Subcutâneos
De abstrações rarefeitas

Sei que flutuam agora
(no agora de um sempre velho e contínuo)
por baixo de nós.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Queria alguém para onde eu pudesse voltar.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Desintegr

Desconfio de que sou um objeto. Achava que era gente: animada.

Será que não passo de um sonho alheio, ou será o outro que é um sonho meu?
É a beira da loucura: a falta de comunicação.
Que virtude tem a virtualidade?
Se é que tem.
Que vantagens tem a realidade?
Se é que existe.
Estou quase virando espelho.
Quase virando imagem.
Virando falha de transmissão
Vir
ando
teclas
soltas
.
.
.
esqueces.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Poema esburacado: por insetos e falhas de cálculo

Poesia é pior que borboleta
De tão frágil.

Sua pele é feita de pó de giz
Deixa rastros se tocada
Mas não aceita nada
Que não se cale ao seu voar
Por merecer um só instante
De verdade
E alegria
A borboleta
poesia
Vez em quando vem
como cigarra
Debaixo da terra entocada
fica
Esperando a hora de soar
Quando descobre a realidade
Começa um canto tímido
e
se por acaso tem brisa
Grita mais que pode

Então
não sendo pólen
Vira casca
Deixa sua marca
mas engole sua sina
Que é a de um meio dia
Cair da lira
e virar sonho
Daquele que
por mais que lhe amasse
Em nascimento
Virada a lua
A deixou
Alegando falta de simpatia.
(e certa amnésia afetiva)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sem som

O poema está quebrado
Cacos de vidro pelo chão
Palavras abandonadas.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ser humano cansa.
Sentir enfada
Expressar-se transborda
Inventar esvazia
Amar fica,
E fica, fica, fica...
Que até enjoa.

Mas ainda assim fica, fica, fica...

Desejo um dia
Ser qualquer coisa que não tenha coração:
pedra, fogo, som, poça d’água, nuvem, alicate,...

Coração cansa, enfada, transborda, esvazia
E um dia pára.

Pára porque sabe que tudo que não acaba, acabado está.

Mas e o amar?
Este a gente põe passarinho.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Da capacidade crítica

Não sou uma pessoa crítica, sei bem pouco da qualidade dos materiais. Os outros que encontram os problemas; e eu, por achar que devo demonstrar apuro de percepção, nestas ocasiões vou logo assentindo com a cabeça e acusando de canalhas aqueles pobres defeitos que nunca me fizeram mal algum.
A matemática não mede suas palavras. Sai dizendo, doa a quem doer. Não conhece brisas, nem sabor de pirulito. Ela é direta.
Pergunto-me se já tivera alguma dúvida sobre a morte. Se sofre de medo de falar em público, ou se já recomendaram-lhe psicanálise.
Será que alguma vez caiu do cavalo? E se caiu, torceu o pé? –A matemática não usa sapato.
Não tem digital. Nunca escreveu uma carta de amor...
Tem olhos de boneca.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Lá Onde o Vento Faz a Curva

Ah, o outono!
Tens meu amor constante,
sorriso doravante.
Pedaço de luz
coberto de fim distante.
Gosto do frio suposto que enverga,
da manta velha que lembra,
do seu anúncio de muitos adeus.
Do amiúde quietar das pessoas a voltar do trabalho.
A rotina embarcada
no seu obliquo olhar para o nunca.

Outono velho
com o cheiro das quentes fumaças
da queimada de cana - o imediato embaçado.
Da criançada festiva a deixar a escola
em brincadeiras pastéis de amarelo e azul
Pelo fim da tarde, pela noite a vir.

Outono meu
que é tão interior,
tão das pequenas cidades
onde existem silêncios...
Filete de movimento entre cortes delicados...

Bomba de despedida
que me convida a partir sem lastro
Por alargar tempo e espaço.

sábado, 24 de março de 2012

Moça

Naquilo que era para voar,
Ficou quieta
Buscou em frente
Caminhou
Muitos passaram
Sorveu um gole de chá – de canudinho
Cogitou um beijo na boca
A tarde esquentava em direção a noite
Quis um abraço
Imaginou de que braços
Só barulho de carros ouvia
Fumaça
Um poste acendeu,
Dois, três, quatro,
A cidade toda
Enquanto esperava o amor

segunda-feira, 19 de março de 2012

Fragmento de Auto-Retrato.

Tem algo em mim que é sempre longe
Sempre alheio
Inapreensível

Tem algo de mim que é sempre adeus
Sempre torcido
De lado

Tem algo
Sem limites
Que não senta
Algo
De rio
Água de floresta às cinco horas

Tem algo em mim
Que não precisa
Nem depende ou espera
Permite a leva
Sem laços
Descondicionado

Permanência desatada
Apenas voluntária - a insegurança dos "amigos"

Errância natural
meu traço vital

sexta-feira, 16 de março de 2012

Sem título

Como afeta.
Tudo se junta numa trama de nexos e sentimentos os quais meu espírito tem de conter. A compreensão é difícil, talvez impossível para minha pele e meus nervos. – A gente quer alguma compensação, alguma justiça justa, mas é provável que o mundo não seja interligado como minha mente procura simular. Pode ser que não exista sentido fora de mim.

Ah, este descompasso, estes pedaços desencontrados...
Meu corpo tenta modelar uma razão mínima para esta angústia. Só estou em palavras (o que tenho). Palavras que conversam comigo. Minha família feita significados grafados em luz, elétrons flutuantes.
Eu e minhas pequenas letras: ambiente de quem não tem nenhum amor. Floresta silenciosa de escuta e compreensão. Sempre caminho do sertão.
Minhas pequenas asas, transparências no vento: as letrinhas que são meu firmamento.

Quão macia é a vida para quem cultiva cotidiano – para quem busca cotidiano: as carícias todas, o polvo doce dos enlaces sentimentais, o intercâmbio de fluídos.
De leve, só posso as palavras. Volto para a vida e ela rasga.

Vocês não sabem como mata ser forte: o abandono das necessidades mais íntimas, o choro engolido – ou o choro sem companhia –, a entrega à respiração; a resistência por um princípio de coletividade. Caminhar, vagar, espraiar-se até desaparecer; manter-se vivo por respeito a vida e nada mais. Esquecer as faltas todas, as faltas do mundo; as dívidas que são somente o reflexo dos seus sonhos assassinados, da sua ordem abalada.
Não há de quem cobrar meu desespero, minha solidão; não há braços que decidam acolher.

Então minhas flores letrinhas, onde confio meu sono, deposito as carências. Essas delicadas criaturas, ligeiramente vivas entre sinapses coloridas.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Poeta do século XXI

Gatinho abandonado na chuva
Falo trêmulo
Nariz em desvio

Um bandido indefeso
Âmbar de adeus

Uma bela mulher lânguida no horizonte.

O avesso de "Fernando"

O poeta é um sentidor
Sente tão completamente que chega a sentir que é dor
A dor que deveras mente.

O fim que é sempre poesia

O poeta não trabalha,
o poeta sente.
A sociedade precisa de sentidores,
seus pormenores -ou seriam pormaiores - todos?

A sociedade precisa de anjos,
os anjos são os poetas.
O poeta é meio humano e meio demasiado humano
Aquele suspenso a tratar dos silêncios.

O poeta quase não existe
É breve
A síntese do que não conseguimos dizer.
Ele diz
Traz para a carne.

O poeta é a certeza
O fundo dos nossos sonhos distorcidos
O poeta
Palavra rasa
Palavra surda
Palavra solta
Palavra nua.

Corpo estendido e nenhum improviso
Definitivo

O poeta:
A essência quando nada lhe resta.

domingo, 4 de março de 2012

Aforismas de própria autoria

Desejo não é a mesma coisa que amor; são sentimentos que podem coincidir numa mesma direção, mas é bom que se saiba que desejo é vontade de ter e amor é vontade de dar.


O problema do querer é que ele sempre implica em uma responsabilidade para com o que se quer e tudo aquilo que se insere nas condições do querer.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Deus Bailarino

Chovia sem espaço entre as gotas. O barulho d’água não permitia que ninguém conversasse: estavam todos hipnotizados, como a platéia esperando o clímax da ópera. A chuva se impunha forte e impávida dominando todas as criaturas. Não tardou, e um grande rio levantou correndo da encosta; feliz, descia rindo e agitando suas bandeiras. Ninguém conseguia amar naquela hora, eram todos o desengano: o medo de Deus, a consciência de sua miséria. Mas havia um – e apenas um – que respirava aquela tormenta: Nijinski, que dançava e dançava, celebrando a chegada dos pais.
Solidão é onde os sentidos não encontram eco.
Onde só existe a distância.
Nada é mais mortal do que uma alma pobre.

Para a "Besta dos Pinheirais" - Lembrando de Paulo Leminski

O poeta é pássaro que por engano nasceu gente,
um riozinho que seguraram,
uma pedra articulada.

Um poeta não conhece limites,
não gosta de receitas
nem de certezas.

Um poeta é sempre torto, sempre belo;
translúcido como sonho e
inesquecível como uma saudade.